Questão 130
1 ____ Que me perdoem os devotos machadianos, eu prefiroEuclides da Cunha e Lima Barreto, com todos os defeitos queambos possam ter, a Machado de Assis, com todas as suas4 qualidades. E, até onde pude entender, Millôr Fernandes temopinião parecida com a minha. Tanto assim que, segundoafirmou, não incluiria qualquer dos livros de Machado de Assis7 entre os dez maiores romances brasileiros.____ A meu ver, ao falar assim, Millôr Fernandes levou emconta apenas livros como Dom Casmurro, em que, na minha10 opinião, Machado incorre naquela miopia contra a qual omúsico Jayme Ovalle reclamava. Mas esqueceu de QuincasBorba, que inclui Machado de Assis na linhagem cervantina da13 literatura e em que a insânia de Rubião se aproxima da insâniado Cavaleiro da Triste Figura.____ Mas, talvez por causa da ironia sem compaixão de16 Machado de Assis, a loucura de Rubião gira somente em tornode sua pessoa, jamais partindo ele para qualquer ação nosentido de corrigir “os desconcertos do mundo” — como19 acontecia com o cavaleiro manchego. De modo que opersonagem mais generosamente quixotesco da literaturabrasileira não é Rubião, é Policarpo Quaresma. Lima Barreto22 é nosso escritor mais puramente humorístico, tomada a palavraem seu verdadeiro sentido, que inclui, ao lado do riso, acompaixão, que a ironia de Machado de Assis ou impede ou mancha.25 ____ Alguns escritores que desprezam o Brasil e seu povocostumam usar Policarpo Quaresma como pretexto paraescarnecer de ambos. Pensam, talvez, que Lima Barreto era um28 deles. Esquecem que, em seu romance, o grande escritorcarioca ri, antes de tudo, de si mesmo. E, sobretudo, não veemtais escritores que, se a realidade brutal e mesquinha (inclusive31 a da política) desmente e destrói, a cada instante, as açõesgenerosas de Policarpo Quaresma, a pureza de seu sonhopermanece intocada até a morte, o que o coloca muito acima34 dos poderosos e “realistas” que o cercam.Ariano Suassuna. In: Cadernos de literatura brasileira – Millôr Fernandes,n.o 15, Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2003, p. 18-9 (com adaptações).Acerca das ideias desenvolvidas no texto acima, julgue (C ou E) os itens subsequentes. O autor do texto postula que o humor, na acepção por ele indicada, é qualidade distintiva de uma narrativa literária e incompatível com a ironia e o sarcasmo, recursos de uso frequente na literatura brasileira, especialmente entre os escritores com visão antinacionalista, referidos no texto como “escritores que desprezam o Brasil e seu povo” (L.25).
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