Texto para as questões de 1 a 15.AS INSTITUIÇÕES E O PRÊMIO NOBEL1 Acemoglu, Robinson e Johnson ganharam o Prêmio Nobel de Economia neste ano. Em2001, eles explicaram o atraso dos países em relação aos países ricos com a tese de que ospaíses que se atrasaram não foram colônias de povoamento como foram os Estados Unidosou a Austrália. Estavam em parte corretos, porque essa foi a tese clássica de Caio Prado5 Júnior. Não discutirei aqui esse trabalho. Em 2005, eles "descobriram" que o atraso dos países periféricos em relação aos paísescentrais poderia ser explicado pelo fato de suas instituições não terem garantido suficientementea propriedade e os contratos e, assim, haverem desestimulado os empresários a investir.Estavam, neste caso, errados.10 Afirmar a importância de boas instituições para o desenvolvimento é a mesma coisa quedizer que a água é importante. É óbvio que as instituições – as normas que organizam a vidasocial – são fundamentais. A questão real não é essa, mas sim se faz sentido usar as instituições para explicar oatraso em vez de considerar as estruturas sociais, como eles fizeram sem saber no trabalho15 anterior. Elas nos dizem, no caso do atraso, se o país teve uma colonização de povoamentoou de exploração mercantil, como nos países latino-americanos. Nos primeiros, formou-se logo uma classe média e a evolução para o capitalismo foiquase natural, enquanto nos países periféricos o caráter tradicional da sociedade e a condiçãocolonial ou dependente se mantiveram por muito tempo; no caso da dependência, até agora.20 Nos dizem qual foi o peso do escravismo em cada sociedade. O que os novos nóbeis de Economia – ou a escola novo-institucionalista à qual pertencem– subestimam é que as instituições são endógenas. Elas dependem das estruturas sociais;elas mudam conforme mudam essas estruturas. A partir do livro de 1990 de Douglas North, "Instituições, Mudança Institucional25 e Desempenho Econômico", o institucionalismo se transformou em uma teoria dedesenvolvimento. Surgiu, não por acaso, em torno de 1980. Foi nesse momento que os Estados Unidos e os demais países ricos fizeram a "viradaneoliberal" e perceberam que as instituições eram uma forma muito mais cômoda de explicaro atraso da periferia. Dessa maneira, a nova escola livrava-se não apenas de questões30 estruturais mais difíceis de mudar, mas também do imperialismo ao qual os países periféricosforam e continuam sendo submetidos. A tese novo-institucionalista da propriedade e dos contratos parece verdadeira à primeiravista, mas realmente não faz sentido. Tomando-se como referência os primeiros anos do século 19: como seria possível35 comparar países em que a estrutura social era tradicional e a população em grande parteindígena ou descendente de escravos com a estrutura social de países como os EstadosUnidos ou a Austrália? Dar importância às instituições sem considerar as estruturas tornou mais fácil para ocentro neoliberal definir o que os países periféricos deveriam fazer. Bastaria fazer as reformas40 institucionais – privatizar, desregular, liberalizar – e tudo seria resolvido. Há ainda a considerar que em países de renda média é comum haver instituições maismodernas e adequadas do que nos países em desenvolvimento. Nós, por exemplo, temos aregulamentação dos medicamentos genéricos que poucos países ricos têm. Na Grã-Bretanha,a obtenção de documentos é mais demorada do que no Brasil. Nos Estados Unidos, o uso de45 armas de fogo é permitido senão incentivado. Mudar as instituições é fácil, mudar as estruturas é mais difícil, e o país se livrar doimperialismo é mais difícil ainda. Muito mais fácil é realizar as reformas neoliberais,principalmente a completa liberalização comercial e financeira. O centro não quer odesenvolvimento da periferia; ele não quer que esta produza bens com mão de obra barata50 para com ele concorrer e quer manter a troca desigual entre manufaturas e commodities. Sim, as instituições, assim como a água, são importantes. É impossível viver sem elas,mas assim como por trás da água estão as nascentes, por trás das instituições estão asestruturas econômicas e sociais.Luiz Carlos Bresser Pereira.Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2024/11/as-instituicoes-e-o-premio-nobel.shtml. Acesso em: 6 nov. 2024. Dar importância às instituições sem considerar as estruturas tornou mais fácil para o centro neoliberal definir o que os países periféricos deveriam fazer. (L.38-39)No período acima, há