Texto I – itens de 1 a 121 Escrevo porque tenho — sempre tive — umaimaginação muito forte (o que não quer dizernecessariamente rica, ou boa). Fui desses meninos que4 sonhava acordado, que inventava histórias a respeito detudo. Quinze anos de psicanálise me fizeram entendertambém o quanto construímos de ficções, de mentiras, para7 nos proteger do real, o quanto temos medo do mundo talqual ele é. O mais saudável, me parece, é encarar o real eguardar as ficções para os livros, desaguá-las ali, fazer10 delas matéria de sonho e de prazer. É um trabalhoestafante, muitas vezes decepcionante, em que lidamostodo o tempo com o fracasso — e por isso o escritor está13 sempre a se corrigir, a escrever e a reescrever, está sempreinsatisfeito. O fracasso é a matéria-prima da literatura, masé meio escandaloso dizer isso num mundo governado pela16 idéia do sucesso. Escrevo, portanto, para fracassar, isto é,para testar meus limites, a força de meus sonhos (...), paradesafiar o real, provocá-lo, colocá-lo à prova, para tentar19 encontrar sentidos, ou construir sentidos onde, em geral,existe apenas anarquia e escuridão. Não sou um pessimista:acho que a vida é muito rica justamente porque é22 anárquica. A maior exigência que se faz a um escritor épedir que ele suporte sua própria liberdade interior.Sem liberdade interior ninguém consegue escrever, mas25 a liberdade interior leva a um enfrentamento com o caosque define o real. Por isso não se pode ceder ao medo,embora todos tenhamos medo sempre.Entrevista de José Castello. Cult, jun./2001, p. 8 (com adaptações)Julgue os itens a seguir, com relação às idéias do texto I. Segundo o autor, escrever é um ato de enfrentamento da realidade, um ato de coragem.