Texto I – itens de 1 a 201 ____ A sociedade humana organizou-se sobre algunseixos que, ao longo da história da civilização, revelaram-se constantes, mas em permanente rotação: o manejo da4 técnica desde o domínio do fogo; a regulação das trocasdesde a proibição do incesto; a ordenação do mundo pelanomeação do verbo; o controle das massas pela tomada7 do poder. Entre eles, girando igualmente ao sabor deforças intercondicionadas, estava o homem — assim,grafado no singular e significando o coletivo. O homem,10 então, era os homens.A primeira notícia que se tem desta noçãodelineia este ser humano, menos como espécie e mais13 como gênero, sem qualquer traço de individualidade queo retirasse do todo em que se perdia anônimo. Nomestinham apenas os que simbolizavam este coletivo: os reis16 — legisladores — profetas, cuja vontade e cuja palavradeterminavam as fronteiras em que se moviam osdemais, que, morrendo anonimamente em seu nome,19 paradoxalmente lhe permitiam dar vida a este nome eperpetuar-se na memória.Mesmo quando doutrinas menos monolíticas22 passaram a criar dissabores para estas estruturas aqui eacolá, o homem, imaginando-se como um outro, em umahistória de lugares marcados, desenvolveu uma percepção25 míope de sua condição pessoal, a não ser quando do“chamado” divino.Das histórias de seres imaginários e coisas28 anímicas às narrativas de confissões e memórias, passam-se alguns milênios e muitos conflitos em que as vitóriasno campo de batalha nem sempre significaram, para os31 nomeados, êxito na manipulação das massas. Esta genteignara, de difícil compreensão e muita perplexidade, antescomprometia que servia, pela ignorância, os rumos que o34 poder estatuía, como o da história.A noção de indivíduo nos chega com o Romantismo,quando o herói, não mais místico ou legendário, mas navegador37 ou mascate, começa a fazer um nome, tirando do anonimato umCristóvão Colombo, um Romeu, um Quixote, um Rousseau. Dasconfissões de Rousseau, podem-se puxar dois fios que, de perto,40 tocam o tema de que se está a tratar: o da noção deindividualidade e o da relevância da educação. A revoluçãomercantil e marinheira, que sustentou economicamente o43 Renascimento e o Absolutismo, já fortalecera as corporações deofícios e as pequenas escolas monacais para tornar útil a gentemiúda, despreparada para garantir seu sustento e o dos reinos.46 ___ A noção de indivíduo, todavia, se circunscrevesociologicamente para distinguir o homem na multidão e,mesmo quando ao cabo da revolução burguesa, o nome próprio49 ganhou foro (enquanto se vendiam títulos de nobreza), aeducação se manteve como instrumento de domesticação eadaptação dos indivíduos aos papéis sociais que lhes foram52 reservados pelo novo sistema.Educar, no entanto, apontava para outrosprocedimentos. De ex-ducere — conduzir para fora, trazer à55 tona, à expressão, o que vive dentro do homem —, educação,pelo próprio étimo, solicitava estratégias diversas das que entãose punham em marcha no processo de escolarização que,58 lentamente, se expandia. Educação presumia acompanhamento,companhia, diálogo, troca de olhares e de experiências,manifestação da relação homem versus mundo que a percepção61 colhia, ensaio de especulações, construção de conhecimento.Ao contrário, um rol sistemático de conteúdos e devalores, tendo por base ideologias subliminares, desenhou o64 educando educável e o homem educado que a sociedadealmejava conformar. Primeiro, a prevalência do caráterinstrumental; depois, o adestramento de habilidades; em67 seguida, a assimilação da tradição e do conhecimentoacumulados e, por fim, o treinamento técnico. E a sociedade,dessa forma, distancia-se cada vez mais dos sonhos de cidadania70 responsável e de qualidade de vida com direitos garantidos.Eliana Yunes. Função do leitor: a construção da singularidade. In: Pensar a leitura: complexidades. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2002, p. 115 (com adaptações).A partir do texto I, julgue os itens a seguir. O segundo parágrafo mostra a visão dicotômica da remota estrutura social em que, de um lado, estavam os detentores de poder, exemplificados pelos monarcas, e, de outro, o povo, a garantia da permanência dos poderosos.