Texto 6A1AAA1 Está demonstrado, portanto, que o revisor errou, quese não errou confundiu, que se não confundiu imaginou, masvenha atirar-lhe a primeira pedra aquele que não tenha errado,4 confundido ou imaginado nunca. Errar, disse-o quem sabia, épróprio do homem, o que significa, se não é erro tomar aspalavras à letra, que não seria verdadeiro homem aquele que7 não errasse. Porém, esta suprema máxima não pode serutilizada como desculpa universal que a todos nos absolveriade juízos coxos e opiniões mancas. Quem não sabe deve10 perguntar, ter essa humildade, e uma precaução tão elementardeveria tê-la sempre presente o revisor, tanto mais que nemsequer precisaria sair de sua casa, do escritório onde agora está13 trabalhando, pois não faltam aqui os livros que o elucidariamse tivesse tido a sageza e prudência de não acreditar cegamentenaquilo que supõe saber, que daí é que vêm os enganos piores,16 não da ignorância. Nestas ajoujadas estantes, milhares emilhares de páginas esperam a cintilação duma curiosidadeinicial ou a firme luz que é sempre a dúvida que busca o seu19 próprio esclarecimento. Lancemos, enfim, a crédito do revisorter reunido, ao longo duma vida, tantas e tão diversas fontes deinformação, embora um simples olhar nos revele que estão22 faltando no seu tombo as tecnologias da informática, mas odinheiro, desgraçadamente, não chega a tudo, e este ofício, éaltura de dizê-lo, inclui-se entre os mais mal pagos do orbe.25 Um dia, mas Alá é maior, qualquer corrector de livros terá aoseu dispor um terminal de computador que o manterá ligado,noite e dia, umbilicalmente, ao banco central de dados, não28 tendo ele, e nós, mais que desejar que entre esses dados dosaber total não se tenha insinuado, como o diabo no convento,o erro tentador.31 Seja como for, enquanto não chega esse dia, os livrosestão aqui, como uma galáxia pulsante, e as palavras, dentrodeles, são outra poeira cósmica flutuando, à espera do olhar34 que as irá fixar num sentido ou nelas procurará o sentido novo,porque assim como vão variando as explicações do universo,também a sentença que antes parecera imutável para todo o37 sempre oferece subitamente outra interpretação, a possibilidadeduma contradição latente, a evidência do seu erro próprio.Aqui, neste escritório onde a verdade não pode ser mais do que40 uma cara sobreposta às infinitas máscaras variantes, estão oscostumados dicionários da língua e vocabulários, os Morais eAurélios, os Morenos e Torrinhas, algumas gramáticas, o43 Manual do Perfeito Revisor, vademeco de ofício [...].José Saramago. História do cerco de Lisboa.São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 25-6.No que se refere às ideias, aos fatores de textualidade do texto 6A1AAA e à variação linguística, julgue os seguintes itens. Na construção do texto, o autor, além de narrar fato que aconteceu com “o revisor”, explora, repetidas vezes e de diferentes modos, a ideia de que a dúvida pode ser algo positivo.