Texto para as questões de 36 a 60. Diva. 1 Visitando o negociante, vi ao entrar na sala uma linda moça, que não reconheci.Estava só. De pé no vão da janela cheia de luz, meio reclinada ao peitoril, tinha na mão um livro aberto e lia comatenção.Não é possível idear nada mais puro e harmonioso do que o perfil dessa estátua de moça.5Era alta e esbelta. Tinha um desses talhes flexíveis e lançados, que são hastes de lírio para o rosto gentil; porém, namesma delicadeza do porte, esculpiam-se os contornos mais graciosos com firme nitidez das linhas e uma deliciosa suavidadenos relevos.Não era alva, também não era morena. Tinha sua tez a cor das pétalas da magnólia, quando vão desfalecendo ao beijodo sol. Mimosa cor de mulher, se a aveluda a pubescência juvenil, e a luz coa pelo fino tecido, e um sangue puro a escumilha10 de róseo matiz. A dela era assim.Uma altivez de rainha cingia-lhe a fronte, como diadema cintilando na cabeça de um anjo. Havia em toda a sua pessoaum quer que fosse de sublime e excelso que a abstraía da terra. Contemplando-a naquele instante de enlevo, dir-se-ia que elase preparava para sua celeste ascensão.Às vezes, porém, a impressão da leitura turbava a serena elação da sua figura, e despertava nela a mulher. Então15 desferia alma por todos os poros. Os grandes olhos, velutados de negro, rasgavam-se para dardejar as centelhas elétricas donervoso organismo. Nesses momentos toda ela era somente coração, porque toda ela palpitava e sentia.Eu tinha parado na porta, e admirava: afinal adiantei-me para cumprimentá-la. Ouvindo o rumor dos meus passos, elavoltou-se.- Minha senhora!... Murmurei inclinando-me.20 As cores fugiram-lhe. Ela vestiu-se como de uma túnica lívida e glacial: logo depois sua fisionomia anuviou-se, e eu vilampejos fuzilarem naquela densidade de uma cólera súbita.Fulminou-me com um olhar augusto e desapareceu.Acreditas, Paulo, que essa moça que te descrevi fosse Emília, a menina feia e desgraciosa que eu deixara dois anosantes? Que sublime trabalho de florescência animada não realizara a natureza nessa mulher!25 Emília teria então dezessete anos. Sentia-se, olhando-a, a influência misteriosa que um espírito superior tinha exercidona revolução operada em sua pessoa. O trajo, ainda nimiamente avaro dos encantos que ocultava, era de um molde severo;mas havia, no gracioso da forma e na combinação do enfeite, uns toques artísticos, que se revelavam também no bastotrançado do luxuoso cabelo negro.Voltei impressionado por essa visão de sala em pleno dia.30 Se a transformação de Emília produzira em mim uma admiração grande, maior foi a humilhação que sofri com o seudesdém. Já não era uma menina; estava moça, e não me devia só a cortesia a que tem direito o homem delicado, devia-megratidão.- Talvez ignore! Disse eu comigo.Nos dias que se seguiram, surgiu alguma vez em meu espírito aquela imagem de moça; mas essa lembrança me35 incomodava.Uma tarde encontrei-me com o irmão:- Ia à tua casa! Disse-me Geraldo.- Pois vamos.- Não. Já que te encontrei poupa-me essa maçada. Minha tia manda-te dizer que amanhã toma-se chá em sua casa.40 Julinha faz anos.- Ah! D. Matilde?...- Sim. Adeus.- Espera.- Não posso. Ainda vou à chácara, e tenho de voltar para o teatro.45 D. Matilde é casada com um irmão de Duarte. Seu marido vive constantemente na fazenda, trabalhando para tirardela os avultados rendimentos necessários ao luxo que sua família ostenta na corte. Ainda moça, bonita e muito elegante,ela é perdida pelo cortejo e galanteio de sala. Nunca a honra conjugal sucumbiu a essa fascinação, mas a casta dignidade daesposa foi sacrificada sem reserva. Disponível em: https://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/diva.pdf Acerca do exposto no texto, assinale a alternativa correta.